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Quintal de Neblina

1 de abril de 2026

Valeria, o cotidiano e as verdades que nascem da escrita em O Caderno Proibido, de Alba de Céspedes

Sabia que era apenas que era um romance sobre a vida de uma mulher aparentemente comum. Foi uma compra totalmente aleatória, sem muita expectativa, só porque algo no livro chama atenção naquele momento. Nada na premissa parecia especialmente dramático ou cheio de acontecimentos. Ainda assim, nas primeiras entradas do diário de Valeria tive a sensação — que comigo não acontecia havia muito tempo — de quando um livro te pega de maneira imediata. Não era uma história cheia de ação ou de grandes acontecimentos. Era apenas a vida dela, os pensamentos dela, pequenas observações sobre a rotina. E mesmo assim havia algo ali que me puxava para dentro da leitura. Lembro de ter pensado, ainda no começo, que aquele livro provavelmente ia mexer comigo de alguma forma. 

Conforme fui lendo, percebi que O Caderno Proibido não funciona através de grandes acontecimentos. O romance faz outra coisa, muito mais discreta: ele acompanha o momento em que alguém começa, aos poucos, a olhar para a própria vida com uma honestidade que nunca tenha tido antes. Esse movimento é quase imperceptível, mas é justamente nele que o livro encontra sua força. A escrita de Valeria, ao longo do diário, vai mostrando pequenas fissuras na superfície aparentemente estável da vida cotidiana.

Em certo momento ela escreve que “aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida”, e essa frase parece condensar O essencial no romance. Em vez de grandes acontecimentos, o livro se constrói a partir dessas pequenas percepções que vão se acumulando lentamente até alterar a forma como a personagem passa a compreender a própria existência.

Registro feito por mim em um ponto de ônibus

Ao longo da leitura fica cada vez mais claro que o caderno funciona como um espaço onde certas verdades começam a aparecer mesmo quando a personagem não planejava dizê-las. Quando Valeria admite que escrever a obriga a registrar pensamentos que jamais ousaria pronunciar em voz alta, percebemos que o diário se transforma em um lugar onde ela já não consegue esconder de si mesma pequenas frustrações, ressentimentos silenciosos e desejos que nunca tiveram espaço para existir. Por isso essa dimensão da escrita me tocou tanto. Sempre tive a sensação de que escrever tem esse poder de tornar certas coisas mais reais. Às vezes estamos apenas com uma impressão vaga, um pensamento incompleto, algo que ainda não conseguimos formular direito. Mas quando aquilo finalmente aparece em palavras, alguma coisa se organiza. E, muitas vezes, o que aparece no papel não é necessariamente bonito ou confortável, é apenas verdadeiro.

Valeria não abandona sua família, não rompe violentamente com sua vida, não realiza nenhum gesto escandaloso. Tudo o que ela faz é pensar. E ainda assim o romance parece sugerir que esse simples gesto já é suficiente para desestabilizar muitas certezas.

Uma das coisas que aparece constantemente no diário é a passagem do tempo. A vida de Valeria não foi moldada por grandes decisões, mas por pequenas escolhas acumuladas ao longo dos anos: rotinas, responsabilidades, compromissos cotidianos que, pouco a pouco, foram organizando sua existência até que chega um momento em que ela percebe que aquela vida já está completamente estruturada. A vida adulta às vezes se constrói exatamente assim, de maneira tão gradual que só percebemos suas estruturas quando já estamos vivendo dentro delas. Enquanto lia, fiquei pensando em como isso talvez aconteça com quase todo mundo — inclusive comigo, mesmo estando ainda em uma fase da vida que parece cheia de possibilidades. O caderno surge justamente nesse ponto da vida de Valeria, quando o passado já parece consolidado e o futuro começa a parecer um pouco mais estreito do que antes.

A leitura me provocou uma reflexão mais ampla sobre a própria estrutura da vida cotidiana. Grande parte das nossas escolhas não acontece em momentos decisivos, mas na repetição quase invisível de pequenos gestos diários. A rotina tem essa capacidade curiosa de se naturalizar tanto que deixamos de percebê-la como resultado de escolhas. Só quando paramos para observar (como Valeria faz ao escrever) é que percebemos que aquilo que parecia inevitável talvez tenha sido, na verdade, construído pouco a pouco. Em certo momento do diário ela reconhece algo que atravessa discretamente sua rotina ao admitir que “a determinação com a qual me defendo de qualquer possibilidade de repousar talvez não passe de medo de perder essa única fonte de felicidade que é o cansaço”. A frase expõe uma lógica curiosade que o cansaço acaba se tornando não apenas consequência das obrigações, mas também a justificativa que mantém tudo funcionando como sempre.

Essa forma de escrita também aproxima o romance de uma tradição importante da literatura moderna: a do diário como espaço de construção da interioridade. Em diferentes momentos da história literária, o caderno íntimo aparece como um lugar onde personagens tentam compreender a si mesmas diante de circunstâncias que parecem maiores do que elas. Em O Diário de Anne Frank, por exemplo, o caderno se transforma no espaço onde uma jovem tenta preservar sua interioridade em meio à violência histórica que a cerca. Já em A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath, embora a narrativa não seja formalmente um diário, a primeira pessoa cria uma sensação semelhante de mergulho direto na consciência da personagem.

O que torna o romance de Alba de Céspedes particularmente interessante dentro dessa tradição é que o diário não surge apenas como registro da vida, mas como um verdadeiro instrumento de transformação psicológica. Valeria começa a escrever para registrar o dia a dia, quase como quem organiza pensamentos dispersos, mas logo percebe que o simples ato de escrever altera sua relação com o mundo. A escrita deixa de funcionar apenas como memória e passa a se tornar análise, questionamento e, de certa forma, ameaça. O caderno abre um espaço de pensamento que antes não existia, e talvez seja justamente isso que o torna “proibido”.

Essa dimensão ganha ainda mais significado quando lembramos da trajetória da própria autora. Alba de Céspedes foi uma figura importante da literatura europeia do século XX. Nascida em Roma em 1911, filha de um diplomata cubano e de uma italiana, cresceu em um ambiente culturalmente cosmopolita e politicamente engajado. Durante o período do fascismo na Itália participou de atividades antifascistas e chegou a ser presa por suas posições políticas. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, envolveu-se com movimentos de resistência e trabalhou em programas de rádio voltados para a luta contra o regime. Sua produção literária esteve profundamente ligada à experiência feminina e às transformações sociais do século XX. Por isso o romance também pode ser lido em diálogo com debates intelectuais do pós-guerra, especialmente aqueles ligados ao feminismo existencialista. O percurso interior de Valeria ecoa questões muito próximas das discutidas por Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. Quando Beauvoir afirma que a mulher historicamente foi definida como “o outro” em relação ao homem, ela descreve um processo social em que a identidade feminina é construída a partir de papéis e expectativas externas. Em O Caderno Proibido, vemos algo semelhante acontecer no nível da experiência rotineira.

Essa tensão aparece de forma particularmente clara em um momento do diário em que Valeria observa que “se os filhos podem confessar francamente que se entediam com os pais, uma mãe nunca pode confessar que se entedia com os filhos sem parecer desnaturada”. A observação parece pequena, quase casual, mas aponta uma expectativa de que a maternidade exige uma disponibilidade afetiva constante, como se qualquer sinal de cansaço ou ambivalência fosse imediatamente interpretado como falha moral.

Em vários momentos da leitura tive a sensação desconfortável de reconhecer algo familiar nessa inquietação da personagem. Em teoria nossas vidas são muito diferentes, eu não sou casada (ainda), não tenho filhos (ainda), não administro uma casa inteira nem carrego décadas de rotina estruturando minha existência. Minha realidade é outra: estou em uma fase de expectativas, de projetos, de construção de caminhos. Existe um namorado, existe uma imaginação de futuro, uma ideia de família que talvez venha um dia. E ainda assim, em certos momentos da leitura, parecia que o livro não falava apenas sobre a vida de Valeria, mas sobre algo mais amplo na experiência feminina.

A filha de Valeria tem seu diário. O filho tem sua vida reservada, seus próprios movimentos. O marido tem seus pensamentos, seus espaços de silêncio. Todos parecem possuir algum território interior que lhes pertence. O simples fato de Valeria ter um caderno, no entanto, já é visto, por ela mesma, como algo quase indevido. Como se o pensamento dela, quando não está voltado para os outros, fosse uma espécie de desvio. E foi nesse momento que senti algo difícil de explicar — uma sensação estranha, quase como se estivesse observando de longe uma possibilidade da minha própria vida. Pensei no quanto, ao nos tornarmos mães, talvez muitas partes de nós precisem se reorganizar para dar lugar a outras. Não digo isso como crítica, nem como medo, mas como uma espécie de consciência tranquila e, ao mesmo tempo, melancólica. 

Enquanto lia Valeria tentando proteger aquele pequeno espaço secreto do caderno, senti algo que talvez se aproxime de um luto antecipado. Um luto não por algo que já aconteceu, mas por algo que talvez um dia aconteça. Um luto por essa versão de mim que existe agora, a que tem tempo para se perder em pensamentos, que abre um livro no meio da tarde, que escreve, que observa a própria vida como quem observa uma paisagem em formação. Fiquei pensando se, um dia, quando a maternidade ocupar esse espaço, essa Amanda ainda vai existir da mesma maneira ou se ela também precisará se transformar em outra coisa. Talvez seja inevitável que isso aconteça.

Durante muito tempo, a experiência interior das mulheres permaneceu praticamente invisível na literatura. O que torna romances como O Caderno Proibido tão importantes é justamente o fato de que eles registram algo que por séculos foi considerado irrelevante: os pensamentos silenciosos de uma mulher comum. Talvez seja por isso que o romance continue tão perturbador décadas depois de sua publicação. Ele não oferece soluções fáceis nem finais triunfantes. Em vez disso, mostra o momento em que alguém começa a olhar para a própria vida com lucidez.

Quando penso nisso agora, acho curioso lembrar que tudo começou com uma compra completamente aleatória, um livro escolhido quase sem pensar. E, no entanto, algumas leituras acabam abrindo perguntas que continuam conosco muito depois que fechamos o livro.

Enquanto refletia sobre O Caderno Proibido, uma pergunta ficou comigo por bastante tempo: quantas vidas são vividas no piloto automático antes que alguém pare para se perguntar quem realmente é? Talvez todos nós, em algum momento, precisemos de um caderno proibido, não necessariamente para encontrar respostas definitivas, mas para formular as perguntas certas. Porque, no fundo, entender a própria vida às vezes começa com um gesto muito simples: parar, por um momento, e escrever.

"Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse a minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade de alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair nos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma a outra sem esse mínimo de sinceridade?" De Clarice, em carta para sua irmã Tania Kaufmann 


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