Eu desconfio das minhas próprias lembranças.
Às vezes me pego revisitando cenas que, na época, nem pareciam especiais. Uma tarde comum. Uma conversa qualquer. Um trajeto que eu fazia quase no automático. Naquele dia, eu estava distraída, talvez ansiosa com outra coisa, talvez querendo estar em outro lugar. E, ainda assim, quando lembro, parece haver ali uma luz que eu não tinha percebido.
Isso me inquieta.
Será que o passado era realmente mais bonito ou sou eu que preciso que ele tenha sido?
A gente romantiza o passado porque ele já não pode mais nos ferir. Ele já fez o que tinha que fazer. Já doeu o que tinha que doer. Já decepcionou o que tinha que decepcionar. Não pode piorar. Não pode mudar de forma. Não pode revelar um detalhe novo que desestabilize tudo. Está encerrado. E o que está encerrado parece seguro.
Mas memória não é neutra. Ela reorganiza. Walter Benjamin escreve, nas Teses sobre o conceito de história, que o passado não pode ser conhecido “como ele de fato foi”. Ele só aparece quando relampeja no presente, quando algo no agora o convoca. Eu não volto ao passado como quem abre um arquivo intacto; eu o alcanço a partir das minhas urgências de hoje. Ele não é estático. Ele é convocado.
Outro dia encontrei uma foto antiga no rolo da câmera. Eu lembrava daquela fase como confusa, pesada. Mas na imagem eu estava sorrindo. Havia leveza no rosto. Fiquei alguns minutos tentando entender se a foto estava mentindo ou se minha memória decidiu guardar apenas o que doeu. Talvez nenhuma das duas esteja mentindo. Talvez estejam apenas narrando versões diferentes.
Existe algo quase cruel na forma como tratamos o presente. Exigimos dele clareza imediata. Queremos saber se estamos na fase certa, se estamos vivendo algo que vai “valer a pena”, se isso vai virar memória bonita ou arrependimento. O presente carrega uma pressão que o passado nunca mais carregará. O passado não precisa mais dar certo. Ele já deu (ou já fracassou) definitivamente. Talvez por isso seja tão fácil ter ternura por ele. Amar aquilo que já não pode mais nos frustrar é confortável. É um amor sem risco. O presente, ao contrário, ainda pode falhar amanhã. Pode revelar que eu estava enganada. Pode não se transformar na história que eu esperava contar. Kierkegaard fala da angústia como vertigem da possibilidade — esse tremor diante do que ainda pode ser. O passado já não contém possibilidade. O presente contém todas. E essa abertura é desconcertante.
Eu romantizo especialmente os períodos em que eu me sentia mais inteira. Não necessariamente mais feliz, mas mais certa de quem eu era. Não sinto falta exatamente das circunstâncias. O que me falta é a sensação de coerência. O presente é instável também nesse sentido: eu ainda não sei quem estou me tornando. E há algo quase irônico nisso. Taylor Swift canta, em Nothing New: “How can a person know everything at eighteen but nothing at twenty-two?” Sempre que escuto esse verso, sinto um pequeno deslocamento interno. Aos dezoito, parecia que eu entendia o mundo, ou pelo menos a mim mesma. Aos vinte e dois, tudo já estava mais poroso, mais incerto, menos definitivo. A sensação de coerência que eu tinha antes não era maturidade; era a tranquilidade de ainda não ter sido suficientemente confrontada.
Eu romantizo aqueles períodos porque eu parecia mais inteira mas, olhando com mais honestidade, eu apenas era menos consciente das fissuras. Hoje eu hesito mais, duvido mais, reviso mais. E isso pode parecer fragmentação. Na verdade, é expansão. A memória tem ego. Ela precisa organizar quem eu fui para sustentar quem acredito ser hoje. Se olho para trás e vejo apenas erro, eu me fragilizo. Então suavizo. Transformo dor em aprendizado, falha em fase, caos em processo. Só que, às vezes, nesse gesto de reorganizar, eu exagero na luz. E quando exagero na luz, o presente fica pálido.




