O fim do ano sempre chega com um peso específico. Não é só o cansaço acumulado dos dias, mas essa sensação difusa de que algo deveria ser resolvido antes da virada, como se o tempo exigisse um fechamento simbólico, um gesto final de ordem. Como se não fosse permitido atravessar para o próximo ano levando restos, dúvidas, histórias inacabadas.
Mas a verdade é que quase tudo na vida permanece em aberto.
E a gente segue mesmo assim.
Entre o Natal e o Ano Novo, os dias ganham uma textura estranha. O tempo desacelera por fora, mas por dentro tudo parece mais barulhento. As ruas ficam mais silenciosas, o corpo se move no automático, e o pensamento começa a vagar sem muita direção. Não revisito o ano para organizá-lo, mas para senti-lo de novo, às vezes com carinho, às vezes com melancolia, às vezes apenas com um cansaço que finalmente se deixa nomear.
Há anos que não terminam em vitória nem em queda.
Terminarem em constatação também é um tipo de chegada.
Mas o ano não foi atravessado apenas por perdas que o tempo sabe acomodar.
Logo no início, perdi um primo jovem — amigo, futuro ainda em estado de promessa. Quando alguém parte assim, o luto não encontra onde pousar. Ele não se organiza, não se acomoda na memória, não vira saudade possível. Não é apenas a ausência de alguém: é a ruptura da ideia de continuidade. Algo que não deveria acabar, acaba. Algo que ainda estava em formação se interrompe. O tempo falha.
Há mortes que envelhecem com o passar dos dias. Outras permanecem suspensas. Essa ficou. Porque quando alguém jovem morre, não se perde apenas uma pessoa, perde-se uma lógica. O mundo continua funcionando, mas a confiança silenciosa no amanhã se fragiliza. Até hoje, não sei aceitar essa perda. Talvez aceitar nem seja o verbo adequado. Talvez o máximo possível seja aprender a conviver com a inconformidade, com esse nó que não se desfaz e que, vez ou outra, reaparece sem pedir licença.
Foi assim que entendi que o luto não é linear. Ele não começa, não termina, não ensina sempre. Ele reaparece. Muda de forma. Às vezes se manifesta como dor clara; outras, como um estranhamento sutil diante do mundo, como se algo essencial tivesse saído do eixo e nunca mais tivesse retornado exatamente ao lugar.
Foi também o ano em que vivi o luto de outras formas. O luto de um relacionamento relativamente longo, que exigiu desaprender futuros imaginados e aceitar o silêncio. Este ano me ensinou, sem espetáculo, que desejar não é o mesmo que sustentar. Algumas mudanças não acontecem por ruptura, mas por esgotamento. Houve apenas o reconhecimento silencioso de que insistir também pode ser uma forma de se perder, e que, às vezes, cuidar é saber parar.
Perder alguém — pela morte, pelo afastamento ou pelo tempo — também é perder as versões de si que só existiam naquela relação. Gosto de quem sou hoje. Reconheço a pessoa que me tornei. Ainda assim, sinto falta de quem fui, não por querer voltar, mas porque aquela versão também foi casa. A vida não apaga essas camadas. Ela as sobrepõe. E seguimos adiante carregando tudo, não por heroísmo ou força, mas porque seguir é a única forma possível de continuar existindo.




