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Quintal de Neblina

17 de fevereiro de 2026

Será que o passado era realmente mais bonito ou sou eu que preciso que ele tenha sido?

Eu desconfio das minhas próprias lembranças.

Às vezes me pego revisitando cenas que, na época, nem pareciam especiais. Uma tarde comum. Uma conversa qualquer. Um trajeto que eu fazia quase no automático. Naquele dia, eu estava distraída, talvez ansiosa com outra coisa, talvez querendo estar em outro lugar. E, ainda assim, quando lembro, parece haver ali uma luz que eu não tinha percebido.

Isso me inquieta.

Será que o passado era realmente mais bonito ou sou eu que preciso que ele tenha sido?

A gente romantiza o passado porque ele já não pode mais nos ferir. Ele já fez o que tinha que fazer. Já doeu o que tinha que doer. Já decepcionou o que tinha que decepcionar. Não pode piorar. Não pode mudar de forma. Não pode revelar um detalhe novo que desestabilize tudo. Está encerrado. E o que está encerrado parece seguro.

Mas memória não é neutra. Ela reorganiza. Walter Benjamin escreve, nas Teses sobre o conceito de história, que o passado não pode ser conhecido “como ele de fato foi”. Ele só aparece quando relampeja no presente, quando algo no agora o convoca. Eu não volto ao passado como quem abre um arquivo intacto; eu o alcanço a partir das minhas urgências de hoje. Ele não é estático. Ele é convocado.

Outro dia encontrei uma foto antiga no rolo da câmera. Eu lembrava daquela fase como confusa, pesada. Mas na imagem eu estava sorrindo. Havia leveza no rosto. Fiquei alguns minutos tentando entender se a foto estava mentindo ou se minha memória decidiu guardar apenas o que doeu. Talvez nenhuma das duas esteja mentindo. Talvez estejam apenas narrando versões diferentes.

Existe algo quase cruel na forma como tratamos o presente. Exigimos dele clareza imediata. Queremos saber se estamos na fase certa, se estamos vivendo algo que vai “valer a pena”, se isso vai virar memória bonita ou arrependimento. O presente carrega uma pressão que o passado nunca mais carregará. O passado não precisa mais dar certo. Ele já deu (ou já fracassou) definitivamente. Talvez por isso seja tão fácil ter ternura por ele. Amar aquilo que já não pode mais nos frustrar é confortável. É um amor sem risco. O presente, ao contrário, ainda pode falhar amanhã. Pode revelar que eu estava enganada. Pode não se transformar na história que eu esperava contar. Kierkegaard fala da angústia como vertigem da possibilidade — esse tremor diante do que ainda pode ser. O passado já não contém possibilidade. O presente contém todas. E essa abertura é desconcertante.

Eu romantizo especialmente os períodos em que eu me sentia mais inteira. Não necessariamente mais feliz, mas mais certa de quem eu era. Não sinto falta exatamente das circunstâncias. O que me falta é a sensação de coerência. O presente é instável também nesse sentido: eu ainda não sei quem estou me tornando. E há algo quase irônico nisso. Taylor Swift canta, em Nothing New: “How can a person know everything at eighteen but nothing at twenty-two?” Sempre que escuto esse verso, sinto um pequeno deslocamento interno. Aos dezoito, parecia que eu entendia o mundo, ou pelo menos a mim mesma. Aos vinte e dois, tudo já estava mais poroso, mais incerto, menos definitivo. A sensação de coerência que eu tinha antes não era maturidade; era a tranquilidade de ainda não ter sido suficientemente confrontada.

Eu romantizo aqueles períodos porque eu parecia mais inteira mas, olhando com mais honestidade, eu apenas era menos consciente das fissuras. Hoje eu hesito mais, duvido mais, reviso mais. E isso pode parecer fragmentação. Na verdade, é expansão. A memória tem ego. Ela precisa organizar quem eu fui para sustentar quem acredito ser hoje. Se olho para trás e vejo apenas erro, eu me fragilizo. Então suavizo. Transformo dor em aprendizado, falha em fase, caos em processo. Só que, às vezes, nesse gesto de reorganizar, eu exagero na luz. E quando exagero na luz, o presente fica pálido.

Começo a pensar que nunca mais senti algo como “naquela época”. Que nada hoje tem o mesmo peso. Talvez não tenha mesmo. Talvez tenha outro tipo de intensidade. Mas a memória privilegia o que já tem contorno definido. O presente ainda é rascunho. E viver em rascunho é desconfortável. Registro fotos, salvo mensagens, guardo pequenos arquivos digitais. É como se eu estivesse tentando garantir que este momento sobreviva bonito. Como se estivesse preparando a nostalgia de amanhã. No fundo, romantizo o passado porque tenho medo de que o presente não se transforme em memória boa. Existe uma crueldade silenciosa na possibilidade de que o agora seja apenas comum, confuso, imperfeito — e nunca se torne nada além disso. O passado já está salvo. O presente ainda corre risco.

Há também o luto. Não apenas pelas pessoas ou pelos lugares, mas pelas versões de mim que ficaram lá atrás. A garota que acreditava com mais facilidade. A mulher que aceitava menos do que devia. A pessoa que ainda não sabia o que viria. O passado guarda essas versões como se estivessem intactas, mas elas não estão. Elas só sobrevivem porque eu as revisito. A saudade é também uma forma de luto pelas versões de mim que já não existem. Nietzsche alertava, em Da utilidade e desvantagem da história para a vida, que o excesso de passado pode sufocar o presente. Quando transformo o ontem em monumento, o hoje parece pequeno demais para habitar. Nenhuma experiência real compete com uma lembrança editada.

E, ainda assim, há algo que quase nunca admito quando romantizo o passado: às vezes eu olho para aquelas versões antigas de mim e sinto alívio. Alívio por não ser mais aquela pessoa. Por ter perdido certas ingenuidades. Por não aceitar mais o que antes eu aceitava. Por não me reconhecer completamente em quem eu era. Existe algo profundamente positivo em não se reconhecer mais. Significa que houve movimento. Que eu atravessei. Que algumas dores não foram em vão. Que certas decepções me deram limites. Que algumas versões minhas precisaram acabar para que outras começassem.

O passado está quieto não apenas porque perdeu o poder de me ferir, mas porque eu também perdi o poder de ser ferida da mesma maneira. Eu não sinto falta do que foi. Sinto falta da estabilidade que eu achava que tinha. Mas não quero voltar. Quero lembrar sem precisar regressar.

Enquanto escrevo isso, posso estar vivendo um dia que no futuro vou chamar de “época boa”, mesmo achando que ele é apenas comum. Amanhã eu provavelmente vou lembrar de hoje como se fosse mais simples do que está sendo.

O passado já tem moldura. O presente ainda está sendo pintado. E, pela primeira vez, consigo olhar para essa tela inacabada sem desejar que ela já esteja pronta.

Porque não me reconhecer completamente nas versões antigas não é vazio.

É continuidade.

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