Tem livros que chegam como se fossem uma visita esperada há anos. E quando batem na porta, a gente quase não reconhece, mas sente que são da casa. Todo mundo tem mãe, Catarina chegou assim. De mansinho, mas com o peso exato da ausência.
“A falta é uma pinta que você nunca tinha visto. Uma mancha na roupa, que alguém aponta. Um defeito na parede. Depois que você percebe, depois que se dá conta, não consegue voltar a não ver. Fica ali incomodando pra sempre.”
Essa história é sobre Catarina, uma menina que cresce sem mãe. Mas logo a gente entende que não é só isso. Não é sobre a ausência simples, literal, do corpo de uma mulher que partiu ou que nunca esteve. É sobre a presença insistente dessa falta. Sobre como a ausência toma forma, fala alto, costura silêncios e define o mundo antes que a menina consiga dar nome às coisas.
A escrita de Carla Guerson não narra: ela costura. Linha por linha, ela nos leva pelas bordas da dor, sem precisar mergulhar em tragédias explícitas. É uma dor cotidiana. Quase doméstica. Uma dor que cabe dentro de uma xícara de chá. Que se esconde no azulejo da cozinha, no tom de voz de uma avó, na ordem silenciosa de fazer tudo certo.
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| Imagem retirada do Pinterest. Todos os direitos reservados ao autor. |
Pensei, ali, em todas as meninas que conheci — em mim mesma, talvez — tentando caber nas molduras apertadas de como deve ser uma filha, uma neta, uma mulher. E como é radical quando a gente simplesmente não cabe. Como é libertador e dolorido ao mesmo tempo desejar a desobediência como herança.
Esse livro também me fez lembrar de O Piano (Jane Campion), onde uma mulher muda tenta comunicar o que o mundo insiste em silenciar. Aqui, Catarina não é muda, mas há em sua fala uma economia que só quem cresceu com medo de falar demais entende. Cada frase parece medida, pensada, colocada no mundo com hesitação e firmeza. Como se escrever fosse a única forma de continuar.
É uma escrita que lembra muito o que a gente encontra na poesia de Ana Martins Marques ou nos textos de Annie Ernaux: um cotidiano afetivo, denso, que parece insignificante à primeira vista, mas que carrega o mundo inteiro.
Num outro trecho, Catarina diz:
“Liberdade parece muito legal pra quem não tem. Pra quem tem, muitas vezes é só um excesso de opções que acaba sendo uma falta total de saídas.”
Essa frase ficou presa em mim como uma pedra no sapato. Porque sim, às vezes a liberdade é uma armadilha. Às vezes ela é só a aparência de escolha, quando tudo já foi decidido. Para meninas que crescem sem referência, sem afeto suficiente, sem alguém que diga "você pode", o mundo não se abre: ele se fecha de outro jeito. Ele te diz “tudo é possível”, mas te impede de escolher com verdade.
Aqui, me veio à mente “Right Where You Left Me” da Taylor Swift, que fala exatamente sobre estar preso em um lugar, um tempo, uma emoção da qual não se consegue sair. Como Catarina, que carrega uma ausência tão profunda que a paralisa num limbo, na zona onde a dor e a memória se confundem. Taylor canta sobre ficar exatamente “onde você me deixou”, uma metáfora perfeita para quem cresceu com uma falta que não se fecha, uma ferida que nunca cicatriza.
É como se Catarina estivesse ali, congelada no momento da perda, tentando seguir, mas sempre puxada de volta pela ausência que insiste em estar presente, viva, latente. A música nos traz essa sensação de suspensão, de imobilidade emocional que muitas vezes acompanha a ausência materna — um estado onde o passado e o presente se confundem, onde o “seguir em frente” parece impossível, e a espera é a única certeza.
Mas o mais cruel é que, mesmo quem tem mãe, talvez se identifique com Catarina. Porque esse livro não é só sobre a mãe que morreu ou partiu. É sobre a mãe que calou. Sobre a mãe que exigiu demais. Sobre a mãe que não conseguiu amar. Sobre a mãe que foi sombra. É sobre todas as mães que não souberam como cuidar porque ninguém cuidou delas. E sobre as filhas que tentam costurar essas ausências como dá.
Ao longo do livro, fui ficando com a sensação de que Catarina poderia ser minha prima, minha amiga de escola, eu mesma. Fui ficando com a impressão de que esse livro, na verdade, não é uma ficção. Ele é um espelho. Um diário coletivo. Uma história que muitas de nós poderiam ter escrito — se tivéssemos coragem, se tivéssemos tempo, se tivéssemos palavras.
E talvez por isso ele doa tanto.
Terminei a leitura como quem acorda depois de um sonho triste, mas bonito. Fiquei parada olhando para a capa. Depois fechei os olhos. Depois levantei. Fui lavar a louça. Fui viver. Mas levei Catarina comigo. Porque ela não sai da gente.

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