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Quintal de Neblina

6 de agosto de 2025

"A falta é uma pinta que você nunca tinha visto.”

Tem livros que chegam como se fossem uma visita esperada há anos. E quando batem na porta, a gente quase não reconhece, mas sente que são da casa. Todo mundo tem mãe, Catarina chegou assim. De mansinho, mas com o peso exato da ausência.

“A falta é uma pinta que você nunca tinha visto. Uma mancha na roupa, que alguém aponta. Um defeito na parede. Depois que você percebe, depois que se dá conta, não consegue voltar a não ver. Fica ali incomodando pra sempre.”

Essa história é sobre Catarina, uma menina que cresce sem mãe. Mas logo a gente entende que não é só isso. Não é sobre a ausência simples, literal, do corpo de uma mulher que partiu ou que nunca esteve. É sobre a presença insistente dessa falta. Sobre como a ausência toma forma, fala alto, costura silêncios e define o mundo antes que a menina consiga dar nome às coisas.

É sobre como crescer sem mãe significa, muitas vezes, herdar todos os restos:
as regras de conduta que ninguém explica,
as tarefas que ninguém pergunta se você quer fazer,
as esperas que não se encerram,
os afetos condicionados.
E a pergunta que ninguém responde: o que uma menina faz com o que sobrou?

A escrita de Carla Guerson não narra: ela costura. Linha por linha, ela nos leva pelas bordas da dor, sem precisar mergulhar em tragédias explícitas. É uma dor cotidiana. Quase doméstica. Uma dor que cabe dentro de uma xícara de chá. Que se esconde no azulejo da cozinha, no tom de voz de uma avó, na ordem silenciosa de fazer tudo certo.

Em uma das passagens mais marcantes, Catarina tenta ser perfeita. Segue as regras da tal da Vó Amélia. Faz as coisas no tempo certo, do jeito certo. Mas algo dentro dela desvia. Pensa: “o que minha mãe teria feito?”
E conclui: “Gosto da desobediência.”

Imagem retirada do Pinterest. Todos os direitos reservados ao autor.

Pensei, ali, em todas as meninas que conheci — em mim mesma, talvez — tentando caber nas molduras apertadas de como deve ser uma filha, uma neta, uma mulher. E como é radical quando a gente simplesmente não cabe. Como é libertador e dolorido ao mesmo tempo desejar a desobediência como herança.

Esse livro também me fez lembrar de O Piano (Jane Campion), onde uma mulher muda tenta comunicar o que o mundo insiste em silenciar. Aqui, Catarina não é muda, mas há em sua fala uma economia que só quem cresceu com medo de falar demais entende. Cada frase parece medida, pensada, colocada no mundo com hesitação e firmeza. Como se escrever fosse a única forma de continuar.

A linguagem da Carla é afiada, mas nunca cruel. Ela não sangra: ela arde. E a ardência é sempre silenciosa.
Cada parágrafo parece guardado num lugar escondido da infância, e agora entregue ao leitor como quem abre uma caixa de cartas antigas, com fotos amareladas e frases que ninguém mais ousaria escrever.

É uma escrita que lembra muito o que a gente encontra na poesia de Ana Martins Marques ou nos textos de Annie Ernaux: um cotidiano afetivo, denso, que parece insignificante à primeira vista, mas que carrega o mundo inteiro.

Num outro trecho, Catarina diz:

“Liberdade parece muito legal pra quem não tem. Pra quem tem, muitas vezes é só um excesso de opções que acaba sendo uma falta total de saídas.”

Essa frase ficou presa em mim como uma pedra no sapato. Porque sim, às vezes a liberdade é uma armadilha. Às vezes ela é só a aparência de escolha, quando tudo já foi decidido. Para meninas que crescem sem referência, sem afeto suficiente, sem alguém que diga "você pode", o mundo não se abre: ele se fecha de outro jeito. Ele te diz “tudo é possível”, mas te impede de escolher com verdade.

Aqui, me veio à mente “Right Where You Left Me” da Taylor Swift, que fala exatamente sobre estar preso em um lugar, um tempo, uma emoção da qual não se consegue sair. Como Catarina, que carrega uma ausência tão profunda que a paralisa num limbo, na zona onde a dor e a memória se confundem. Taylor canta sobre ficar exatamente “onde você me deixou”, uma metáfora perfeita para quem cresceu com uma falta que não se fecha, uma ferida que nunca cicatriza.

É como se Catarina estivesse ali, congelada no momento da perda, tentando seguir, mas sempre puxada de volta pela ausência que insiste em estar presente, viva, latente. A música nos traz essa sensação de suspensão, de imobilidade emocional que muitas vezes acompanha a ausência materna — um estado onde o passado e o presente se confundem, onde o “seguir em frente” parece impossível, e a espera é a única certeza.


E aí volto ao título. Todo mundo tem mãe, Catarina.

Lido de fora, parece uma constatação. Lido de dentro, parece uma acusação.
Todo mundo tem. Menos você.
E se todo mundo tem, o que você é? O que te falta?

Mas o mais cruel é que, mesmo quem tem mãe, talvez se identifique com Catarina. Porque esse livro não é só sobre a mãe que morreu ou partiu. É sobre a mãe que calou. Sobre a mãe que exigiu demais. Sobre a mãe que não conseguiu amar. Sobre a mãe que foi sombra. É sobre todas as mães que não souberam como cuidar porque ninguém cuidou delas. E sobre as filhas que tentam costurar essas ausências como dá.

Ao longo do livro, fui ficando com a sensação de que Catarina poderia ser minha prima, minha amiga de escola, eu mesma. Fui ficando com a impressão de que esse livro, na verdade, não é uma ficção. Ele é um espelho. Um diário coletivo. Uma história que muitas de nós poderiam ter escrito — se tivéssemos coragem, se tivéssemos tempo, se tivéssemos palavras.

E talvez por isso ele doa tanto.

Terminei a leitura como quem acorda depois de um sonho triste, mas bonito. Fiquei parada olhando para a capa. Depois fechei os olhos. Depois levantei. Fui lavar a louça. Fui viver. Mas levei Catarina comigo. Porque ela não sai da gente.

Todo mundo tem mãe, Catarina é sobre o que a gente perdeu antes de saber que estava perdendo.
É sobre o que nos molda sem a gente perceber.
É sobre o silêncio que a gente aprende a fazer para caber nas expectativas.
É sobre o que a gente ousa escrever para não desaparecer.

Se você já sentiu saudade de algo que nunca teve, leia.
Se você cresceu carregando perguntas, leia.
Se você já cansou de fazer tudo certinho, leia.
E se, depois, você sentir vontade de chorar, saiba: essa é a forma mais honesta de ler esse livro.

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