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Quintal de Neblina

31 de dezembro de 2025

Entre o ano que passa e o que vem

O fim do ano sempre chega com um peso específico. Não é só o cansaço acumulado dos dias, mas essa sensação difusa de que algo deveria ser resolvido antes da virada, como se o tempo exigisse um fechamento simbólico, um gesto final de ordem. Como se não fosse permitido atravessar para o próximo ano levando restos, dúvidas, histórias inacabadas.

Mas a verdade é que quase tudo na vida permanece em aberto.

E a gente segue mesmo assim.

Entre o Natal e o Ano Novo, os dias ganham uma textura estranha. O tempo desacelera por fora, mas por dentro tudo parece mais barulhento. As ruas ficam mais silenciosas, o corpo se move no automático, e o pensamento começa a vagar sem muita direção. Não revisito o ano para organizá-lo, mas para senti-lo de novo, às vezes com carinho, às vezes com melancolia, às vezes apenas com um cansaço que finalmente se deixa nomear.

Há anos que não terminam em vitória nem em queda.

Terminarem em constatação também é um tipo de chegada.

Perdi meus avós maternos. E, com eles, algo em mim que ainda acreditava em permanências estáveis — na ideia de que certas presenças atravessam o tempo como pilares silenciosos, imunes ao desgaste do mundo. A morte deles me ensinou sobre o fim dentro de uma ordem que a vida reconhece. Havia dor, havia saudade, havia despedida (e ainda há). O sofrimento existe, mas encontra contorno, linguagem, ritual. Doía, mas cabia em algum lugar.

Mas o ano não foi atravessado apenas por perdas que o tempo sabe acomodar.

Logo no início, perdi um primo jovem — amigo, futuro ainda em estado de promessa. Quando alguém parte assim, o luto não encontra onde pousar. Ele não se organiza, não se acomoda na memória, não vira saudade possível. Não é apenas a ausência de alguém: é a ruptura da ideia de continuidade. Algo que não deveria acabar, acaba. Algo que ainda estava em formação se interrompe. O tempo falha.

Há mortes que envelhecem com o passar dos dias. Outras permanecem suspensas. Essa ficou. Porque quando alguém jovem morre, não se perde apenas uma pessoa, perde-se uma lógica. O mundo continua funcionando, mas a confiança silenciosa no amanhã se fragiliza. Até hoje, não sei aceitar essa perda. Talvez aceitar nem seja o verbo adequado. Talvez o máximo possível seja aprender a conviver com a inconformidade, com esse nó que não se desfaz e que, vez ou outra, reaparece sem pedir licença.

Foi assim que entendi que o luto não é linear. Ele não começa, não termina, não ensina sempre. Ele reaparece. Muda de forma. Às vezes se manifesta como dor clara; outras, como um estranhamento sutil diante do mundo, como se algo essencial tivesse saído do eixo e nunca mais tivesse retornado exatamente ao lugar.

Foi também o ano em que vivi o luto de outras formas. O luto de um relacionamento relativamente longo, que exigiu desaprender futuros imaginados e aceitar o silêncio. Este ano me ensinou, sem espetáculo, que desejar não é o mesmo que sustentar. Algumas mudanças não acontecem por ruptura, mas por esgotamento. Houve apenas o reconhecimento silencioso de que insistir também pode ser uma forma de se perder, e que, às vezes, cuidar é saber parar.

Perder alguém — pela morte, pelo afastamento ou pelo tempo — também é perder as versões de si que só existiam naquela relação. Gosto de quem sou hoje. Reconheço a pessoa que me tornei. Ainda assim, sinto falta de quem fui, não por querer voltar, mas porque aquela versão também foi casa. A vida não apaga essas camadas. Ela as sobrepõe. E seguimos adiante carregando tudo, não por heroísmo ou força, mas porque seguir é a única forma possível de continuar existindo.

No meio disso tudo, a rotina seguiu. Exigente. Às vezes exaustiva. Houve dias em que o corpo chegou antes da mente, avisando o que eu ainda tentava racionalizar. Aprendi que ele não negocia com idealizações. O corpo pede pausa, atenção, alguma honestidade. E quando não é escutado, encontra seus próprios meios de falar.

Foi nesse terreno que a terapia deixou de ser apenas reflexão e passou a ser sustentação. Não para consertar o ano, mas para atravessá-lo. Para aprender a permanecer onde antes eu tentava entender rápido demais. Para aceitar que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente para ser respeitado.

Em algum ponto desse percurso, uma citação da Lygia Fagundes Telles passou a me acompanhar como um fio discreto e vou levar como mantra para 2026. Em Ciranda de Pedra, ela escreve:

É preciso amar o inútil,  

criar pombos sem pensar em comê-los,  

plantar roseiras sem pensar em colher rosas,  

escrever sem pensar em publicar.  (...)

A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,  

mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.

Amar o inútil, percebi, não é descuido. É recusa da lógica que transforma tudo em desempenho. É permitir que algumas coisas existam sem precisar virar resultado, lição ou prova de amadurecimento.

Curiosamente, as coisas boas deste ano não vieram em forma de grandes acontecimentos. Vieram no cotidiano. Em conversas sem urgência. Em pequenos gestos. Em momentos de calma que antes passariam despercebidos. Aprendi a reconhecer beleza no que não anuncia nada.

Foi assim que conheci meu namorado. Sem alarde. Sem promessas exageradas. Quando eu menos esperava — e, sobretudo, quando menos buscava um relacionamento — ele apareceu. Não como resposta a um pedido urgente, nem como solução para vazios, mas como presença.

Em algum momento, deixei de desejar salvação e passei a desejar companhia. Não alguém que me completasse, mas alguém que caminhasse ao lado. Não um projeto de futuro idealizado, mas um encontro possível, cotidiano, real.

Ele é tudo o que eu sempre sonhei e, de algum modo, mais do que eu sabia desejar. Talvez porque os sonhos de antes fossem feitos de expectativa, e o que existe agora seja feito de presença.

Este ano também trouxe a criação deste blog. Ter um espaço só meu, onde posso colocar pensamentos, sentimentos e ideias sem pressa, é um alívio. É como abrir uma janela dentro de mim mesma e deixar o que está dentro respirar. Escrever sempre foi meu hobby favorito, e embora eu não tenha começado na blogosfera agora, este blog recente surge sem pressa, sem intenção de crescimento ou de público, apenas como um lugar de cuidado comigo mesma.

A distância mais curta entre dois pontos pode até ser a linha reta. Mas a vida não é um problema de geometria. Ela acontece nos atalhos errados, nas voltas inesperadas, nos caminhos que parecem improdutivos até revelarem, muito depois, algum sentido íntimo.

Plantar roseiras sem pensar na colheita é um gesto de confiança no tempo. Criar pombos sem pensar em comê-los é uma reverência à vida pequena. Escrever sem pensar em publicar é um ato de liberdade. Amar o inútil, no fundo, é amar aquilo que não precisa provar nada para existir.

Na última sessão do ano, minha psicóloga me pediu para escrever uma carta para mim mesma. Uma carta que só será lida no fim do próximo ano. Não uma carta de cobrança, nem de metas heroicas, mas de desejos possíveis, pequenas intenções dirigidas à Amanda do futuro. Ainda assim, acima de qualquer lista, existe um pedido central:

Que eu me perdoe por não ter sabido antes.

Que eu não exija de mim a clareza que só o tempo oferece depois.

Que eu reconheça o cansaço dos outros anos sem transformá-lo em fracasso.

Que eu seja gentil com os lutos que ficaram — inclusive os de mim mesma — entendendo que eles fazem parte do caminho, não uma interrupção dele.

Escrever este texto me fez perceber que o ano não se resume a grandes acontecimentos ou listas de conquistas. Ele se revela nos pequenos instantes que passariam despercebidos — gestos, conversas, silêncios, deslocamentos cotidianos. Guardar essas lembranças, nomear essas sensações e reconhecer o que permaneceu, mesmo que de forma sutil, é o que dá sentido ao que passou.

E, quando o barulho das viradas passa, talvez seja isso que reste: o registro silencioso de tudo o que atravessamos, de tudo o que ficou e daquilo que seguimos levando conosco.

E, por ora, isso basta.

Feliz ano novo.

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